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Biscoito da Sorte
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Naquela quinta-feira, cheguei quarenta minutos mais cedo ao trabalho e passei na padaria pra tomar café da manhã. Pedi uma média com leite e um croissant, liguei o meu notebook e comecei a escrever.

Estava concentrado, mas não pude deixar de prestar atenção no diálogo da mesa vizinha. Nela, dois advogados aguardavam o início das atividades forenses. Conversavam sobre uma ação de rito ordinário em trâmite na vigésima oitava vara cível. Era um processo de indenização por danos morais.

Os rábulas, enquanto cuspiam jargões advocatícios pros quatro cantos daquela panificadora secular, fundada em 1872, faziam questão de mirar de soslaio os três candangos ignorantes que passavam a constituir público estupefato, e enfatizavam palavras estranhas ao vocábulo dos matutos.

O chicaneirinho mais moço – e mais empolgado também – repetiu as expressões “embargos infringentes” e “mandado de injunção” uma meia dezena de vezes fora do contexto, haja vista que se tratava de uma açãozinha corriqueira de primeira instância. Mas, pros que querem saborear a convenção social que denomina doutores os meros graduados, sem precisar fazer o sacrifício de cursar medicina, aquele posicionamento arrogante é um deleite.Clicando aqui, você assiste ao vídeo com animação digital
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O senhor não poupava adjetivos para supervalorizar a importância de sua empreitada turística para a economia em virtude de sua contribuição para o produto interno bruto. Para ele, a publicação de um artigo na revista de negócios mais célebre do país era uma cartada conveniente para fortalecer a sua posição perante o governo federal e angariar recursos financeiros provindos dos cofres públicos pelas leis de incentivos fiscais ao turismo. O rapaz, por seu turno, que não resguardava simpatia nenhuma por privilégios e apadrinhamentos, era uma presa complexa para os argumentos tendenciosos do mafioso. Apenas havia aceitado o encargo devido ao seu interesse conceitual por organizações criminosas e pela adrenalina obtida na atuação no âmbito do jornalismo investigativo. O velho, um ilustre orador, utilizava os ínterins de clímax do espetáculo, aproveitando-se da desatenção, para nele inculcar as premissas mais vantajosas para a companhia. E foi percebendo a distração explícita de seu interlocutor, que o ancião valeu-se de seus discursos mais sórdidos. O indivíduo perverso não entendia por quê, mas era tão profunda a introspecção do periodista, que ele presumiu poder falar o que quisesse que o moço consentiria caladamente. Mas as indecências proferidas só poderiam estar provocando algum efeito se fossem no plano inconsciente porque o rapaz já não ouvia mais nada. Ele reconheceu a atriz que preencheu o centro do tablado...Clicando aqui, você lê o conto completo
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Deixe-me ficar
Vivo por dentro
Não tente me internar
No hospício do centro.

Morto por fora
É só um detalhe
Vai-te embora
Não me atrapalhe.

Os porcos
Comem bosta
Efeitos inócuos
Da sua proposta.Clicando aqui, você lê a letra de música
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Sentindo o ar penetrar mais suavemente em seus pulmões, ao recostar a nuca na região superior de seu dorso, certificou-se que o céu continuava azul, porém, não mais azul força aérea, como todo o peso militar das regras da vida adulta em cima das suas costas, mas, sim, azul bebê, bem mais clarinho, bem mais limpo, quase um azul Alice, remetendo-o à época de maravilhas em que ainda não era proibido sonhar.

Doía, era verdade, mas tudo na vida tem um preço e o montante cobrado pela esperança era a dor. Via-se perdido, entretanto, com a concepção de que detinha um prazo maior de existência para livrar-se das amarras que com ele vieram ao mundo.

Cada um dos adeptos agradeceu o Deus do céu e do trovão pelo fim dos temporais. Sabia que não era nada disto, mas também estava grato pela estiagem que preservou as marcas de pneus, os fragmentos de vidro do farol e os vestígios de seu solado. Sem este capricho da natureza, não teria ele encontrado a rota que lhe revelaria sua furtiva identidade. A consistência pastosa do suco vermelho permitia que fosse acelerada a agonia com a fúria voraz de seus dentes, que não eram mais de leite.Clicando aqui, você lê o conto completo
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– É mesmo necessário que eu responda a essa pergunta?

– Não. Eu só perguntei pra sacanear você. Ahahahaha…

– Obrigado. Não estou numa entrevista de doadores de sangue. Estou num show humorístico e sou o ator que serve de escada para a protagonista brilhar.

– É a primeira vez que saio da linha, de modo tão surreal, como agora. O mérito é todo seu, senhor Marcelo. Saiba que sempre sou muito profissional. Mas, não sei por que, senti uma energia diferente em você e quis brincar um pouco. Vai lá doar o sangue. Você é sangue bom em todos os sentidos. Gostei de você. Prazer, o meu nome é Silvia.

– E não é pra menos. Sua mãe acertou no seu nome. Faço minhas as palavras do Marcelo Nova.

– Ooooolha… eu sou funcionária pública. Isso é desacato, viu?

– Eu sei. Por isso não digo o que eu gostaria de berrar no seu ouvido, mas dou graças pelo cantor que já fez isso por mim na década de oitenta.Clicando aqui, você lê o texto completo
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– Senhor Marcelo, já que o senhor não quer desfrutar o privilégio de ter um excelente plano de capitalização do Banco (...), gostaria de falar sobre o nosso seguro de vida.

– Dona Ângela, eu não tenho filhos e sou solteiro.

– E daí, senhor Marcelo?

– Como e daí? Pra que eu vou querer um seguro de vida?

– Pro senhor mesmo. Se o senhor sofrer um acidente e ficar inválido, o senhor recebe o seguro de vida.

– Dona Ângela, se eu sofrer um acidente e ficar inválido, dou um tiro na minha cabeça.
(Trecho da crônica para rádio "O dia em que as comichões me atacaram pela retaguarda")
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