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Biscoito da Sorte
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Toda vez que eu pegava um ônibus, não podia ver uma bengala ou um bigodão desbotado, que já ia levantando e cedendo o meu assento ao matusalém. Até um motorista de um destes coletivos, certa feita, olhou para a minha cara com pena e indagou se eu não sabia que os canalhas também envelhecem. A microtese do operador do veículo girava em torno de que, por trás das peles franzidas dos debilitados e gastos cidadãos poderiam estar, potencialmente, assassinos ou pervertidos sexuais que, chegado o momento do confronto com as consequências, estariam sendo indevidamente poupados. A sua proposição foi ainda mais ousada ao alegar que os ignóbeis desfrutavam de uma durabilidade mais extensa à custa de suas deformidades de escrúpulos, porquanto não tinham noção de toda a ruindade que disseminaram. O corolário do axioma formulado pelo filosófico chofer de transporte público era que, quanto mais idoso fosse o indivíduo, mais provavelmente tratava-se de um verme repulsivo. E se, por ventura, não fossem moralmente desprezíveis, teriam que ser o oposto, ou seja, evoluídos espiritualmente a ponto de não demandar gentilezas. Isto inferia que, em hipótese alguma, eu teria de oferecer a minha poltrona a um ancião. Mas eu não concordava com o argumento dele. Aqueles pontinhos de interrogação curvadinhos, que mais pareciam sacolinhas de supermercado correndo o risco de serem arrastadas pelo vento, apenas podiam ter propagado a bondade durante os anos em que permaneceram na superfície da terra.Clicando aqui, você lê o texto completo
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O senhor não poupava adjetivos para supervalorizar a importância de sua empreitada turística para a economia em virtude de sua contribuição para o produto interno bruto. Para ele, a publicação de um artigo na revista de negócios mais célebre do país era uma cartada conveniente para fortalecer a sua posição perante o governo federal e angariar recursos financeiros provindos dos cofres públicos pelas leis de incentivos fiscais ao turismo. O rapaz, por seu turno, que não resguardava simpatia nenhuma por privilégios e apadrinhamentos, era uma presa complexa para os argumentos tendenciosos do mafioso. Apenas havia aceitado o encargo devido ao seu interesse conceitual por organizações criminosas e pela adrenalina obtida na atuação no âmbito do jornalismo investigativo. O velho, um ilustre orador, utilizava os ínterins de clímax do espetáculo, aproveitando-se da desatenção, para nele inculcar as premissas mais vantajosas para a companhia. E foi percebendo a distração explícita de seu interlocutor, que o ancião valeu-se de seus discursos mais sórdidos. O indivíduo perverso não entendia por quê, mas era tão profunda a introspecção do periodista, que ele presumiu poder falar o que quisesse que o moço consentiria caladamente. Mas as indecências proferidas só poderiam estar provocando algum efeito se fossem no plano inconsciente porque o rapaz já não ouvia mais nada. Ele reconheceu a atriz que preencheu o centro do tablado...Clicando aqui, você lê o conto completo
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Um barbeiro é um especialista muito útil. É graças a ele que eu não caio na desgraça de ter que exibir uma coleção de vaginas artificiais na minha faceta, ao meter-me a desempenhar uma arte que não domino: a perícia de manusear uma lâmina de barbear. Porém basta que um barbeiro seja, somente, um barbeiro, sem cometer o excesso de ser um barbeiro barbeiro. Barbeiro barbeiro é um barbeiro que faz barbeiragem.

Trinta e cinco ou quarenta reais é uma bagatela. Eu pagaria até cem pra que fizessem a minha barba. Se houvesse profissionais dessa ordem no mercado, pagaria até pra escovarem os meus dentes.Clicando aqui, você assiste ao filme com animação gráfica
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Ele inventou o carteado verniano. O objetivo da competição – que mesclava a história e os hábitos do povo daquelas ilhas com a esfera que servia como palco da trama – era acumular uma gama de cartas suficientes para dominar a Lua. Cada peça de papelão continha dados sobre o satélite e os seus habitantes, os nômades que o invadiam e os recursos bélicos utilizados pelos combatentes do Reino de Hina, a deusa da Lua na mitologia polinésia.

A tática dos jogadores consistia em descartar os exemplares alheios à sequência pretendida e conservar os que interessavam à formação serial almejada. Entusiasta das rodas de truco da época da faculdade, ele formulou o passatempo nerd inspirado no baralho ítalo-espanhol de quarenta cartas, sendo algumas representantes de armas e munições ou da geologia do orbe e outras de guerreiros selenitas e exploradores lunares.Clicando aqui, você lê o conto completo
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Se não fosse por causa do seu Ayrton, ambos os juristas estariam, neste momento, confinados em seus escritórios, e não teriam se locomovido com seus veículos automotores, consumindo gasolina, pneus e freios, nem teriam pago a caixinha do frentista que limpou o para-brisas, nem dado mais uma contribuiçãozinha pro comércio de bens de consumo alimentício da região central do município, nem mandado o estagiário tirar fotocópia dos autos, etc.

Isto só pra falar do consumo direto porque o frentista do posto de combustível usou o dinheiro da gorjeta pra comprar leite pro filho, o dono do posto aumentou o faturamento e trocou de aparelho de TV, o estoque de pó de café da padaria acabou antes do tempo e o fornecedor vendeu mais – estendo o benefício ao setor primário, que elevou o plantio – os pneus do carro foram substituídos com antecedência, a lan house, que produziu as fotocópias, por consequência, demandou mais papel e toner e até contratou mais um funcionário, ...

E o vil metal foi passando de mão em mão, chegando a um vadio operador de home broker, que só fica em casa fazendo análise gráfica e especulando na bolsa de valores, comprando e vendendo ações de empresas de terceira linha, que ele chama de papéis, mas que não são mais papéis, são só impulsos eletrônicos.Clicando aqui, você lê o texto completo
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Rasguei o livro, quebrei a parede

Sua escassez me desatina

Você não mata a minha sede

Vê se me entende, vê se me ensina.
(Poesia de Marcelo Garbine que foi declamada por quatro amigos)
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