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Biscoito da Sorte
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Não tardou a identificar o ritmo alegre da Csárdás. Cerca de duas centenas de passos foram o bastante para ter a convicção de que o instrumento reproduzia o andamento sonoro do bailado folclórico de seu país. Desde o início de seu namoro com Boglárka, adaptara-se com a cultura tradicional. A moça era uma exímia bailarina.

As práticas advindas da predileção dele pela religiosidade oriental auxiliaram-no a harmonizar-se com o sexo oposto. No princípio da puberdade, a meditação e a busca do equilíbrio interior transformou-o num homem benevolente que logrou sucesso ao perdoar a cumplicidade de sua progenitora, amaciando o rancor que, até então, carregara. Uma barreira rompeu-se para que o jovem entregasse o seu coração para uma mulher, a despeito da fúria originada pela figura materna. A ojeriza quedou-se alojada em seu subconsciente.

A extroversão da bailarina era discrepante comparada à quietude dele. Afeita a festas, a menina dava o colorido que a mansidão dele pedia em contrapartida. O casamento já tinha data marcada. Boglárka mudar-se-ia para o seu apartamento. Ele já o havia reformado. A pintura deu o toque final do acabamento.Clicando aqui, você lê o conto completo
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Deixa eu ver que livro eu trouxe… Hum… nada mal: Nelson Rodrigues, “Elas gostam de apanhar”.

Saí, às pressas, de casa e nem havia notado qual obra eu havia lançado para dentro da minha mochila surrada.

Um livro de contos é o ideal para matar os torturantes minutos numa sala de espera de oftalmologista.

Tirando a velha senhora, com o seu netinho, que me olhara com fisionomia de escória de esgoto em estado putrefato e mudara de lugar, pondo-se mais cinco assentos de distância desse que vos escreve, não existia mais nada rançoso no recinto. O clima estava leve.

Um livro e ar para respirar era tudo o que eu precisava. Após algumas linhas discorridas e o fim do doce silêncio, minha atenção teve que começar a ser dividida entre as célebres páginas publicadas em 1974 e a atual conversa entre uma sábia criança de uns cinco anos e sua zelosa vovó, exatos quarenta anos depois.Clicando aqui, você lê o texto completo
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E, se você ousar discordar de mim, eu sinto vontade de meter uma bala no meio dessa sua testa. E só não o faço porque – mesmo que as leis dos mortais não me peguem – a minha maldita mente foi desafeiçoada com os inconvenientes genes do sofrimento pela dor alheia. Estes detestáveis dispositivos, que foram essenciais pra continuidade da presença humana no globo terrestre até o instante atual, responsáveis pela vulga "lei da boa vizinhança", não me deixarão ressonar os meus "decibélicos" roncos noctâmbulos em paz. Só por isto. Ah, e também porque eu não sou cem por cento ateu. Mesmo que seja ínfima a possibilidade de haver um Deus, vai que o calhamaço milenar seja fidedigno... Deus me livre!Clicando aqui, você lê a crônica completa
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Aquele japonesinho era muito esquisito... não... na verdade, não era. Eu que era. E sofria bastante bullying por causa disso. Preconceito todos nós temos, mas, quando somos as vítimas, logo levantamos a bandeira do contra. Eu, que vivia isolado, no meu cantinho imaginário pueril, quando olhava para os lados e via o mundo que existia, na realidade, interagia um pouco, nem sempre de uma maneira que se possa ter orgulho.

O ano era 1983. Mini Mingau Ácido na pré-escola. Durante a aula de educação física, fizemos fila para virar cambalhota, no colchonete, conforme mandara a tia Célia. A criaturinha de zoinho puxado, bem na minha frente, olhava-me de rabo de olho, com cara de poucos amigos, que ambos não tínhamos. Ele não estava gostando nada nada nada das chacotas do Mingauzinho.

– Abre o olho, japonês! Vai errar o colchão, na hora de virar cambalhota.

– Eu sou mestiço!

– É japonês. Ahahaha...Clicando aqui, você lê o texto completo
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Vinte minutos era o tempo restante entre a mordida que eu dava naquele sanduíche de rodoviária e o momento indicado pelos algarismos arábicos impressos no bilhete de passagem enfiado no bolso da minha calça.

A quantidade de vidas e histórias que circularam naquele ambiente no qual não havia nenhuma definição certa de área de interesse inquietava-me quanto mais eu brincava de devanear acerca disto. E a aflição era acrescida de demência se o intervalo periódico fosse expandido pela minha imaginação retardada.

Algumas pessoas que ocuparam aquele mesmo espaço muito antes deste que vos fala já estavam pra lá de Bagdá e outras nem existiam mais. Gente que bateu as botas e gente que foi pra casa do... pipi. Mas de que adianta abrir o leque dos anos se o que me convém são os vinte minutos que me cabem? Vinte, não, porque, depois deste passeio inútil que os meus neurônios vagabundos deram entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico, só me sobram dezesseis e uns tique-taques.
(Trecho da crônica "Enterrem o meu ego numa urna de safira")
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A dona Filomena, por exemplo, faxineira de um hotel de Atibaia, no qual eu me hospedava com frequência, enfiou o dedo na minha fuça e disse pra mim que eu não havia limpado os meus sapatos direito, ao retornar da rua.

– Puxa vida, dona Filomena, com todo o respeito que eu tenho pelos seus cabelos brancos e pelo seu digníssimo trabalho, é fato que não atentei pros meus sapatos sujos. Perdoe-me, por gentileza. Mas também não precisa gritar desse jeito comigo. Afinal, não estou aqui de favor, estou pagando caro pela hospedagem.

Ela olhou sarcasticamente pra mim e disse:

– Ah, ah, ah! Você não sabe o que é caro, meu amooooorrrrrr. – Entonando um artificial sotaque carioca nos erres, pra esnobar-me ainda mais.Clicando aqui, você lê o texto completo